domingo, 10 de março de 2013

Marinheiro só

Ao narrar a trajetória errática de um ex-fuzileiro naval, Paul Thomas Anderson chega à maturidade em O Mestre, um filme complexo e difícil de rotular
 
por Antônio Xerxenesky
 
Pode parecer estranho, mas houve uma época em que o norte-americano Paul Thomas Anderson era considerado um cineasta experimental. Em Magnólia (1999), apresentou uma repentina chuva de sapos e botou o elenco inteiro para cantar, num momento dramático, uma canção pop de Aimee Mann. No seu trabalho seguinte, Embriagado de Amor (2002), desconstruiu a comédia romântica e fez o ator Adam Sandler ser perseguido por sombras. O resultado foi um filme bizarro, no qual o jogo de cores se revelava peça fundamental.
Após cinco anos de silêncio (Anderson não é nada prolífico), o diretor retornou com Sangue Negro (2007), obra que, perto das mencionadas, aparenta ser muito mais tradicional. A narrativa com ecos de Cidadão Kane presta homenagem à Hollywood antiga e ao cinema focado em atuações poderosas. Um longa incomum, especialmente pelo desfecho de violência catártica, mas sem muitas trucagens ou pirotecnias.
O Mestre, que entra agora em cartaz no Brasil, segue nesta linha: a busca por um trabalho sofisticado, elegante, capaz de nos recordar de que ainda existe inteligência em Hollywood. Desde o início da produção, a história foi alvo de controvérsia nos Estados Unidos por colocar em primeiro plano o surgimento de uma seita muito similar à cientologia, culto que tem como garoto-propaganda Tom Cruise. Tais questões extra-cinematográficas são irrelevantes, pois nada ajudam a decifrar o grande enigma que é o novo longa de P. T. Anderson.

Selvageria Imprevisível
O enredo gira em torno de Freddie,ex-soldado da Marinha interpretado por Joaquin Phoenix, que se desloca sem rumo pela vida, abandonando empregos e mulheres por motivos insondáveis. Acidentalmente, ele conhece um escritor e pensador chamado Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), que vem ganhando popularidade em certos meios por suas técnicas curiosas de terapia, nas quais busca traumas em vidas passadas. Uma relação de amizade – e de mestre e discípulo, apesar de Freddie nunca ler os escritos de Dodd – se forma entre os dois.
É muito fácil dizer que Lancaster é um charlatão e suas teorias não fazem sentido. Mais difícil é apontar se o personagem está ciente disso ou se acredita na sua obra. A ambiguidade é a marca central do roteiro e é visível também na figura de Freddie. Joaquin Phoenix oferece talvez a melhor performance de sua carreira, dedicando-se por completo a dar vida a uma figura da qual nunca sabemos o que esperar. Cada tique facial ou peculiaridade na fala parece indicar uma faceta ainda desconhecida. O ator é lembrado em Hollywood por ser difícil de lidar, e Anderson se vale disso, captando sua selvageria imprevisível. Em diversos momentos,Freddie lembra o “touro indomável” de Robert De Niro capturado por Martin Scorsese – por sinal, um clássico que Anderson homenageou de forma escancarada em Boogie Nights (1997).
Ainda que ele seja um diretor com apurado senso visual, O Mestre é acima de tudo um filme de atores, e as cenas se prolongam nas extensas conversas que permeiam o roteiro, deixando sobrar um silêncio ao mesmo tempo inútil e essencial. Diferentemente de Sangue Negro, aqui não se constrói um clímax e se avança num ritmo tão errático quanto o do protagonista. Apesar de todas as possíveis ligações freudianas (as recorrentes imagens de água são uma das muitas metáforas presentes), fica difícil extrair um significado definido dessa última obra, que é tanto a mais tradicional (em termos de direção) como a mais incomum, complexa de entender e rotular. Talvez isso seja o que chamam de maturidade.
 
Antônio Xerxenesky é autor do romance Areia nos Dentes e do volume de contos A Página Assombrada por Fantasmas.

Revista Bravo
 

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