sábado, 29 de setembro de 2012

A Charge nossa de cada dia - Laerte


Ruy Castro - Prazeres na "nuvem"

RIO DE JANEIRO - CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com teclado, mouse e disco rígido -pelo que li há dias no "Globo", tudo isso tende a ser história nos próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia inteiro.

A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo estará na chamada "nuvem" -que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.

A "nuvem" é infinita e conterá tudo que puder ser exibido, alugado, vendido, emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas, bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão existindo, mas "na nuvem", sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia elétrica.

Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à "nuvem". Ainda gosto de manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras, originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam -estou estocado). O mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei -só espero que não interrompam logo a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -gosto até do cheiro de mofo.

Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na "nuvem", eu também estarei nas proximidades -em alguma nuvem.

FOLHA D. S.PAULO

29/09/2012

O Ocidente deve se abster de publicar filmes ou charges que sensibilizem o mundo islâmico?

Carlos Eduardo Lins da Silva

NÃO

Quem vai definir quais são os limites?

É moralmente defensável a tese de que ninguém deve ofender ou ridicularizar símbolos considerados sagrados por outra pessoa.

Blasfêmia contra imagens, objetos ou personagens que representam religiões pode causar indignação ou dor, independentemente das possíveis consequências advindas delas.

Em princípio, todos os seres humanos devem ser tratados com respeito pelos demais.

Mas não é justificável que se exija de todos considerar sagrado o que outros assim julgam. O direito à liberdade de expressão também é um valor que pode ser defendido do ponto de vista moral.

Quem abusa dele e provoca danos a indivíduos ou comunidades pode ser processado na forma da lei e punido, quando considerado culpado. Mas muito mais complicado é arguir que Estados ou igrejas tenham poder para impedir que alguém expresse opiniões (ou as ouça ou assista) porque um contingente de devotos se sente ferido por elas.

Se assim for, e se essa condição se estender a todas as denominações religiosas (por que seria admissível que algumas gozassem de tal privilégio e outras não?), a vastidão de temas proibidos seria enorme.
David Koresh, que morreu em 1993 com 82 de seus discípulos da seita Ramo Davidiano, no Texas, mereceria esse tipo de proteção?

E o reverendo Jim Jones, que em 1978 comandou o suicídio em massa de 918 adeptos de seu Templo dos Povos, na Guiana?

A bandeira nacional é sagrada para muitos. Nos Estados Unidos, já se tentou proibir que ela fosse insultada; o regime militar brasileiro punia quem, a seu juízo, a injuriasse, por exemplo, enrolando-se nela num show. Isso seria defensável sob o argumento de que o sagrado não pode ser ofendido?

A Igreja Católica tem o direito de condenar ao inferno a alma de Jean-Luc Godard por se sentir incomodada com o filme "Eu Vos Saúdo, Maria", que considerou blasfemo. Mas o Estado não tem o direito de proibir sua exibição, embora o brasileiro o tenha feito brevemente em 1985.

Quem decide o que é blasfêmia contra quem? Quem tem o poder de resolver o que a sociedade pode ou não assistir? Quem separa o que é maluquice do que é sério? Quem define o que pode ser objeto de humor e o que não pode? Quem classifica o que é engraçado e o que é chulo?

Quando qualquer pessoa pode colocar em redes de comunicação mensagens acessíveis a milhões de outras, é possível ou desejável impor limites prévios para impedir que alguns grupos sociais sofram com o que é divulgado nessas redes?

Se "A Inocências dos Muçulmanos" não tivesse servido de pretexto para nenhum incidente ou morte, ele poderia ter ficado indefinidamente no YouTube, como provavelmente estão agora centenas de outros produtos similares ou muito piores?

Quem vai checar tudo nas redes para identificar o que pode, a seu critério, irritar xiitas, pentescostais, judeus ortodoxos, ateus, nacionalistas, e proibir sua divulgação? Ou só o que causar protestos será proibido?

É muito mais complicado hoje do que até 30 anos atrás prevenir a disseminação de conteúdo infame. É difícil imaginar, por exemplo, que rede de TV como BBC ou CBS colocasse no ar um filme de má qualidade e degradante como este.

Jornalistas profissionais construíram ao longo de décadas um acervo de conceitos, práticas e princípios que diminui a possibilidade de ocorrência de episódios como este. Nas mídias sociais, esta cultura ainda não existe, e talvez nunca exista, devido à infinidade de emissores.

Tentar combater essa dificuldade com censura estatal ou eclesial a tudo que possa sensibilizar uma comunidade religiosa não é solução para o problema e criará muitos outros, mais graves, para a sociedade, em prejuízo especialmente de minorias e despoderados.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA, 59, jornalista, é editor da revista "Política Externa" e autor de "Correspondente Internacional" (Contexto). Foi secretário de redação e ombudsman da Folha


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Mateus Soares de Azevedo


SIM


Quando o objetivo é só chamar a atenção


Não era incomum encontrar, até recentemente, declarações de renomados arabistas sobre a desinformação quase total do público ocidental acerca do islã. O britânico William Stoddart é um deles. Em um livro de 1976, escreveu que o islã era o mundo desconhecido. De lá para cá, muita água correu debaixo da ponte, mas o islã segue desconhecido.

Tendo estudado o assunto por duas décadas, sou levado a concordar com o diagnóstico. Eu acrescentaria que se antes o desconhecimento podia ser considerado inocente, derivado de mera falta de informação, a ignorância de nossos dias não pode.

Ela resulta menos da simples falta de informação do que de opiniões interessadas, truncadas e parciais. Resulta também, às vezes, de material provocativo e irresponsável.

Esse me parece ser o caso do "filme" "Inocência dos Muçulmanos" e das caricaturas do "Pasquim do Carlinhos" francês ("Charlie Hebdô"). O intuito é causar o maior escândalo e turbulência possíveis, atraindo assim atenção para este ou aquele autor ou publicação, além de alguns trocados na conta bancária dos envolvidos.

Qual a contribuição real que este gênero de insulto à religião, seus símbolos e figuras traz para a compreensão do problema?

Uma coisa é criticar de maneira objetiva este ou aquele aspecto do mundo islâmico, ou de outro universo religioso, outra bem diferente é denegrir ou escandalizar gratuitamente com propósitos interessados. Desde quando insulto aos referenciais tradicionais, de qualquer povo que seja, é liberdade de imprensa?

Frequentemente se esquece que não se está lidando com um time de futebol ou uma escola de samba -nenhum demérito aqui-, mas de uma das grandes civilizações da humanidade. Com um conjunto de princípios e valores em torno do qual gira, já por 1.500 anos, a vida e a morte de 1,6 bilhão de seres humanos.

Ao longo de sua milenária existência, o islã trouxe aportes relevantes para a própria civilização ocidental, em praticamente todos os campos de atividade humana. Na filosofia, teologia, espiritualidade, matemática, astronomia, medicina, navegação, arquitetura etc.

E essa civilização emergiu, praticamente do nada, fulminantemente, por assim dizer, graças às visões e inspirações recebidas por um indivíduo chamado Maomé. Ora, surpreende que alguns muçulmanos, que devem tudo o que são e têm ao que o profeta lhes ensinou, se revoltem?

Se, no Ocidente, as antigas sabedorias e as espiritualidades tradicionais não são mais consideradas, se muitos renegam seu patrimônio cristão tradicional, isso não vale para a maioria da humanidade contemporânea. Na Índia, com seus 1,2 bilhão de habitantes, a esmagadora maioria continua praticando a tradição de seus ancestrais. No Extremo Oriente, o mesmo se dá com budistas, taoístas e confucionistas.

Outro aspecto da questão: a "fúria" não envolve a maioria da população islâmica em 50 países.

É uma minoria, manipulável por grupos extremistas, que reage de forma fanática. A maioria não aprova as "liberdades" tomadas com seu profeta, mas não crê que incendiar automóveis ou linchar embaixadores seja uma boa resposta. Ao passo que manifestações pela Primavera Árabe movimentaram dezenas ou centenas de milhares, as contra o filme não mobilizaram mais que centenas de pessoas. Isso certamente diz algo sobre o problema.

Finalmente, não sejamos hipócritas. Nenhum governo ou veículo de imprensa ocidental permite que tudo e qualquer coisa seja publicado. A editora da revista francesa que exibiu fotografias da duquesa de Cambridge -nem os tabloides britânicos o fizeram- foi ameaçada de morte. Só os muçulmanos são fanáticos?

A ideologia da "liberdade de expressão absoluta" me parece uma "religião" política. É uma forma de idolatria, como o culto de um ídolo, um "bezerro de ouro".

MATEUS SOARES DE AZEVEDO, 53, mestre em história das religiões pela USP, é autor de "Homens de um Livro Só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no Pensamento Moderno" (Record), entre outros

FOLHA DE S.PAULO
29/09/2012

Ficção e realidade - SÉRGIO TELLES

Coleman Silk, um professor universitário norte-americano, constatando que dois alunos faltam sistematicamente a suas aulas a ponto de jamais tê-los visto, pergunta à classe quem são aqueles spooks (fantasmas) que nunca apareciam. Como os dois alunos eram negros, a irônica e descompromissada pergunta do professor foi entendida pelos ativistas do campus como uma manifestação de racismo por parte do professor, pois a palavra spook tem um outro significado fortemente ofensivo para os afrodescendentes. O simples incidente letivo é transformado num evento político, destruindo a vida pessoal e profissional do professor.

A história prossegue, adquirindo tinturas de tragédia grega. O professor tinha um segredo desconhecido por todos que termina por ser revelado. Filho de negros, ele se fizera passar por judeu e branco, pois assim o permitia a cor de sua pele. Então, o que parecia ser uma acusação injusta e despropositada, fruto de radicalismos políticos, transforma-se na punição do destino a um filho que renegou os pais e sua origem e assumiu uma identidade falsa. Em linhas gerais, essa é a trama de A Marca Humana (The Human Stain), de Philip Roth (Companhia das Letras).

Importantes críticos e resenhadores norte-americanos pensaram que Coleman Silk, o personagem de Roth, teria sido inspirado na vida de Anatole Broyard, respeitado jornalista literário e figura de relevo no mundo intelectual nova-iorquino nos anos 60 e 70, que tinha uma história semelhante, era um negro que se fazia passar por branco.

Tais dados foram publicados pela Wikipedia no verbete sobre o livro. Roth solicitou a correção da informação, declarando que construíra seu personagem baseado em episódios da vida de um amigo, Melvin Tumin, que fora professor de direito em Princeton por 30 anos. A Wikipedia não aceitou a explicação de Roth, alegando que o fato de ser o autor não lhe dava a última palavra sobre o assunto e que ele deveria procurar depoimentos de terceiros que o apoiassem. Inconformado, Roth escreveu no último dia 7 uma carta aberta ao New York Times, falando sobre o assunto.

À primeira vista, poderia parecer que não importa se a crítica atribui tal ou qual origem para os personagens fictícios de uma obra, e não se entende por que Roth se preocupa tanto com o assunto. De fato, para o leitor comum, não interessa saber se o personagem Coleman Silk foi baseado na vida de Tumin ou Broyard. Sua apreciação do romance não depende disso e sim do talento com o qual Roth construiu seu personagem. Mas ao se especular sobre as fontes de um romance, entram em cena importantes questões literárias sobre o ato da escrita, o poder do autor sobre sua obra, os processos da criação e a relação entre realidade e ficção.

Em sua longa carta, Roth diz que não poderia ter-se inspirado em Broyard, pois só o conhecia superficialmente, o que não acontecia com Tumin, de quem era íntimo. Esse é um argumento pouco convincente, que só se sustentaria se estivesse escrevendo uma biografia, na qual é imprescindível a pesquisa dos dados históricos reais, objetivos. Na ficção, o que vale é a verossimilhança, não a verdade fática. Frequentemente os personagens nascem de uma colagem de características de vários modelos reais, a que o escritor acrescenta elementos a partir de sua imaginação, dando-lhe a feição final.

Parece-me que a Wikipedia está correta em contestar a soberana autoridade que Roth arroga para si como autor ao falar de seu livro. O autor não pode controlar a leitura de sua obra, estabelecer o que dela pode se depreender, o que deve ser entendido. O texto jamais será fiel aos limites por ele fixados, dirá sempre mais ou menos do que seu criador pretendia, pois para produzi-lo lançou mão de recursos conscientes e inconscientes. Isso significa que o próprio autor não tem domínio absoluto sobre o que escreve, pode expressar inadvertidamente elementos que só serão detectados por um terceiro (criptomnésias, apropriações involuntárias de histórias, trechos, estilos de outros escritores, etc.), como costuma ocorrer com os conteúdos inconscientes no discurso - os atos falhos e lapsos são percebidos pelo outro, não por quem os comete.

É evidente que o autor sabe das fontes conscientes que o inspiraram. O problema é que ele vai reconhecê-las ou não publicamente em função de um complicado contexto, pois está em jogo o que talvez seja o elemento mais delicado da criação literária - a complexa mistura de elementos da realidade com a imaginação criativa do escritor, fusão da qual resulta algo único e novo, um texto original.

O escritor é um saqueador de histórias. Mas, ao contrário do paparazzo ou do colunista de fofocas de celebridades, não tem como objetivo precípuo a exposição da privacidade alheia, não faz da indiscrição maldosa sua meta. Na banalidade ou estranheza das histórias que recolhe, ele consegue divisar um filão secreto - o veio sagrado da vida, do sinuoso movimento do tempo, das forças maiores que se abatem sobre a fragilidade do homem, e a partir daí cria uma peça que dá testemunho do inefável acontecimento da existência.

Sobre o fato aparentemente estranho, de que Melvin Tumin e Anatole Broyard compartilhassem uma história tão inusitada, é fácil de entender. Naquela ocasião, não eram os únicos a se encontrarem nessa difícil posição. Durante a 2.ª Guerra Mundial, as forças armadas norte-americanas mantinham uma rígida divisão racial e muitos negros de pele clara alistaram-se como brancos, usufruindo regalias negadas a soldados negros. No final da guerra, não quiseram retomar a condição social inferior à qual a segregação os relegava e mantiveram a falsa identidade. Calcula-se que cerca de 150 mil homens fizeram tal escolha, rompendo de forma completa com o passado e a família, iniciando vida nova numa condição que seguramente lhes cobrava um insuportável custo emocional. Esse fato bem revela a amplitude do problema e a rigidez do racismo norte-americano no período anterior à luta pelos direitos civis.

Quanto à carta de Roth, a Wikipedia incorporou no verbete sua argumentação, juntamente com os comentários da filha de Broyard sobre a mesma, contestando a afirmação que Roth faz de nunca ter ido à casa de seu pai, pois se lembra de tê-lo visto ali, quando criança. Mesmo assim, reconhece-lhe o direito, enquanto autor, de ocultar suas fontes, se, por razões particulares, assim o preferir.


ESTADÃO

29/09/2012

sábado, 25 de agosto de 2012

Coletânea mostra pesadelos e obsessões de Philip K. Dick

"Realidades Adaptadas" traz histórias que foram transpostas para o cinema

BRAULIO TAVARES
ESPECIAL PARA A FOLHA


O editor David Hartwell disse uma vez que qualquer livro de Philip K. Dick pode servir de porta de entrada para sua obra, porque Dick está inteiro em cada um dos seus livros, com a sua maneira única de escrever e a sua visão peculiar da realidade. Dick (1928-1982) foi um escritor obcecado por meia dúzia de temas filosóficos, políticos, científicos.

Se começasse a escrever qualquer história, fosse uma história sobre colônias espaciais, sobre donas de casa regando o jardim ou sobre soldados em guerra, cedo ou tarde estaria falando sobre líderes messiânicos, perda de identidade, a distinção entre homem e máquina.

Isso também se observa nos seus contos curtos, que decolam das situações iniciais mais improváveis mas acabam sempre sobrevoando o mesmo território.

A editora Aleph reuniu em um volume as histórias curtas de Dick que foram adaptadas para o cinema.
Ficam de fora os romances adaptados, como, por exemplo, "Do Androids Dream of Electric Sheep?" (1968), que resultou em "Blade Runner" (1982), e "A Scanner Darkly" (1977), adaptado como "O Homem Duplo" (2006).

Um dos temas preferidos do autor era o da possibilidade de calcular as probabilidades de ocorrência de diferentes variantes do futuro. Seus precogs, mutantes com essa capacidade, aparecem aqui em "O Relatório Minoritário" e "Segunda Variedade".

São precursores dos romances de William Gibson e seus heróis capazes de observar uma quantidade espantosa de dados e indicar tendências, sem saber, no entanto como o fazem.

LABIRINTO

Em "O Pagamento", Dick antecipa os videogames onde o jogador reúne objetos cuja função só será descoberta nos momentos de perigo.

Elementos da Guerra Fria estão presentes em "Equipe de Ajuste" (uma metáfora das manipulações dos governos) e "Segunda Variedade" (em que russos e androides são equiparados).
Stanislaw Lem, o autor de "Solaris", disse que, ao contrário de outros autores, Dick não se comporta como um guia que conduz o leitor dentro do romance; ele parece estar igualmente perdido no labirinto. Suas histórias têm um começo espantoso e um final desconcertante.

É como se o ato de escrevê-las fosse abrindo janelas em sua mente e revelando outras cenas, outras situações.

Cada história sua é o pesadelo de um sujeito que se vê diante de coisas impossíveis e precisa inventar uma explicação do Universo que inclua ele próprio e aquele fato.

BRAULIO TAVARES é escritor e compositor. Publica no blog Mundo Fantasmo (mundofantasmo.blogspot.com)

REALIDADES ADAPTADAS
AUTOR Philip K. Dick
EDITORA Aleph
TRADUÇÃO Ludimila Hashimoto
QUANTO R$ 48 (304 págs.)
AVALIAÇÃO bom




FOLHA DE S.PAULO
25/08/2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mídia, a opinião pública e o controle de armas

Após o tiroteio que deixou 12 mortos em um cinema de Aurora, no estado americano do Colorado, em 20 de julho, alguns jornalistas distorceram a opinião pública para prever que o massacre não terá impacto no debate sobre a prevenção da violência por armas, afirma Matt Gertz em artigo no Media Matters [23/7/12]. A realidade é outra, diz ele, com pesquisas indicando apoio público para uma gama de restrições mais fortes, incluindo a volta da proibição de armas de ataque de curto alcance – o que poderia ter evitado a compra legal de pelo menos uma das armas do atirador.
Chris Cillizza, do Washington Post, deu início ao debate com um artigo publicado na manhã seguinte à tragédia, com o título: “Por que o tiroteio de Aurora provavelmente não irá mudar o debate sobre o controle de armas”. “O tiroteio fará pouco para mudar o sentimento público em relação ao controle de armas. Em 1990, quase oito em dez americanos disseram que as leis referentes à venda de armas deveriam ser mais rígidas, enquanto apenas 10% disseram que elas poderiam ser menos rígidas ou mantidas do jeito que são. Em 2010, estes números mudaram rapidamente para 54% preferindo leis menos rígidas ou sem mudanças e 44% acreditando que as leis deveriam ser mais rígidas”, escreveu.
Na semana passada, a alegação de que os americanos não apoiam leis mais duras referentes a armas era recorrente nos talk shows matutinos. Números semelhantes aos apresentados por Cillizza foram divulgados pelos apresentadores do Face the Nation, da CBS, e também do Fox News Sunday. Outros jornalistas usaram análises de eleições passadas para sugerir que o público condenaria membros do Congresso que apoiam o controle de armas. Os analistas políticos Bob Shrum, Evan Bayh e Steve Schmidt chegaram a afirmar nos programasMeet the Press, da NBC, e Fox News Sunday que a perda de assentos democratas no Congresso durante as eleições intermediárias de 1994 ocorreu devido ao apoio à legislação de controle de armas na administração anterior.
O editor colaborador da revista American Prospect, Paul Waldman, desconstruiu esta alegação, afirmando que o endosso da Associação Nacional de Rifles representou apenas dois pontos percentuais favorecendo os rivais republicanos e nada para os democratas, e que apenas 12 concorrentes do Partido Republicano venceram as eleições naquele ano por uma margem de quatro pontos ou menos. Como os republicanos ficaram com 54 assentos, parece claro que a questão das armas, sozinha, não foi a causa do menor número de assentos.
No artigo no Post, Cillizza ignora, ainda, que o tiroteiro na Universidade Virginia Tech, em 2007, gerou, pela primeira vez em décadas, a aprovação de leis de prevenção à violência por armas. Dias depois do ataque, democratas do Congresso e a Associação Nacional de Rifles estavam trabalhando juntos em uma legislação para fortalecer o sistema nacional para evitar que pessoas mentalmente doentes comprassem armas. A proposta foi efetivamente transformada em lei em janeiro de 2008. Segundo uma pesquisa de 2011, 89% dos entrevistados apoiam esta lei.
A favor de leis mais rígidas
Se o Congresso não se mobilizar por esta nova tragédia para aprovar leis de prevenção à violência por armas, não será porque os americanos se opõem a tais medidas. Na verdade, outras pesquisas indicam que eles apoiam a aprovação de uma série de novas leis de vendas de armas, mais firmes.
O apetite do público por leis mais fortes inclui o apoio de mais de três em cinco pessoas para restabelecer a proibição nacional sobre armas de curto alcance, que expirou em 2004. Uma das armas usadas pelo atirador do cinema em Aurora era um rifle estilo AR-15 semiautomático, que, se houvesse a lei, não poderia ter sido comprado. Membros da Câmara e do Senado pediram para que a lei voltasse a valer, após o tiroteio – o que é apoiado por 62% dos americanos, incluindo 61% de independentes e 49% de republicanos, segundo uma pesquisa da revista Time de junho de 2011.
Pesquisas recentes indicam que muitas outras leis a favor da prevenção da violência por armas têm apoio público: 86% apoiam que seja necessário que compradores de armas passem por uma análise criminal; 69% apoiam limitar o número de armas que uma pessoa possa comprar em um determinado período de tempo; 66% querem que proprietários registrem suas armas; 88% querem que os que estão na lista de supostos terroristas sejam proibidos de comprar armas.

31/07/2012 na edição 705
Tradução: Larriza Thurler (edição de Leticia Nunes)
Observatório da Imprensa

Luis Fernando VERISSIMO - Celebração

Caiu muita coisa do céu no espetáculo de inauguração da olimpíada de Londres: as argolas olímpicas incandescentes, várias Mary Poppins – e a rainha, de paraquedas. Está certo, não era a rainha e sim um fac-símile razoável, mas Elizabeth se prestou a participar da encenação e só cedeu seu papel a um dublê na hora do salto, apesar da insistência do príncipe Charles para que ela mesmo se atirasse.

De qualquer jeito foi admirável ver a rainha incluída numa seleção de ícones britânicos – Shakespeare, Beatles, 007 – feita sem distinção entre o pop e o solene. Tudo que era solidamente inglês se integrava no espetáculo, fosse a rainha ou o Mr. Bean.

Imagino que a primeira decisão de quem organiza uma festa como a da inauguração da olimpíada ou de evento similar como uma Copa do Mundo deva ser entre celebrar o país que faz a festa ou o chamado espírito olímpico, de congraçamento entre os povos acima de fronteiras e identidades nacionais, etc., etc.

Os ingleses decidiram ser ingleses ao ponto de ostentação. Nada de espírito olímpico, o festejado, e bem festejado, foi o espírito nacional. Mas não foi uma celebração acrítica. Mostraram a revolução industrial que começou na Inglaterra e mudou o mundo e ao mesmo tempo – com aquelas espantosas chaminés brotando do chão para espalhar a fuligem por campos outrora verdes e pastorais – as consequências das sombrias usinas satânicas, as dark satanic mills do poema de William Blake, na vida das pessoas.

E não deixou de haver política na apresentação. Não havia muita razão para aquele longo segmento dedicado ao serviço nacional de saúde, o plano de assistência médica universal posto em prática pelos trabalhistas que nenhum governo conservador ousou tocar, a não ser como um recado para o atual governo conservador. Como medida de austeridade para enfrentar a crise o governo Cameron está cortando benefícios sociais com um entusiasmo inédito desde os tempos da sra. Thatcher e sua machadinha impiedosa.

O show das enfermeiras dançantes e das crianças bem tratadas foi para lembrar que o National Health Service é uma instituição inglesa tão digna de ser celebrada quanto as outras – e quem se atrever a mudá-la terá que se entender com a Mary Poppins.
ZERO HORA
ESTADÃO
O GLOBO
02/08/2012 

O oráculo americano

O oráculo americano

DE SÃO PAULO


O escritor, ensaísta, roteirista e dramaturgo norte-americano Eugene Luther Gore Vidal morreu na madrugada de ontem, em casa, em Los Angeles (EUA), aos 86. Ele estava com pneumonia.

Autor de 25 romances, dois livros de memórias, oito peças de teatro e centenas de ensaios, Vidal alimentou com gosto a persona do intelectual público, midiático e ávido pela controvérsia.

Como escritor, dedicou-se sobretudo aos romances históricos e de costumes. No cinema, colaborou com roteiros de filmes como "Ben Hur" (1959). Mas foi no papel de ensaísta político que o autor construiu seu prestígio.

"Gore é um homem sem inconsciente", dizia o escritor italiano Italo Calvino, sobre a lucidez do intelectual.

São dele as mais perspicazes observações sobre o declínio do império americano, que Gore Vidal dizia "estar apodrecendo em ritmo fúnebre", sobretudo pela afeição ao militarismo.

Liderou críticas à política internacional norte-americana no período das guerras do Vietnã e do Iraque. Classificou o ex-presidente George W. Bush como "o homem mais estúpido dos Estados Unidos". Também criticou o tratamento dispensado por Israel aos palestinos.

Após o 11 de Setembro, acusou o governo dos EUA de levar os ataques "para dentro de casa", com diplomacia que considerava equivocada.
 
MONTAIGNE

Pela destreza com que aprofundava temas políticos e refletia sobre as transformações da sociedade no pós-guerra, foi chamado de "uma versão americana de Montaigne". Fazia jus à comparação escrevendo com propriedade, humor e finas provocações intelectuais.

De origem aristocrática e neto do senador Thomas P. Gore (1870-1949) -para quem lia na infância, dada a cegueira do avô-, candidatou-se duas vezes ao Congresso. Derrotado, voltou à trincheira da reflexão política.

"Vidal é um dos raros seres civilizados que restam no nosso mundo", sentenciou Paulo Francis, em artigo publicado na Folha em setembro de 1980.

Também se destacou pela militância sexual. Com o livro "A Cidade e o Pilar", de 1948, causou furor por narrar um romance entre dois homens.

Já em "Palimpsesto", contou ter se relacionado com mais de mil homens e mulheres até os 25 anos.
Mas, com o ex-executivo Howard Austen, morto em 2003, Gore Vidal manteve um relacionamento de 55 anos. O segredo da longevidade da relação, segundo ele, era nunca terem dormido juntos.
Doente, fez a última aparição em 2009, quando ganhou o National Book Awards.

Análise ensaios

Versátil, Gore Vidal passa à história como bom ensaísta


Premiado, escritor se via como sucessor de Edmund Wilson
 
MARIO CESAR CARVALHO
DE SÃO PAULO


Gore Vidal (1935-2012) foi escritor, dramaturgo, roteirista de cinema, político e jornalista, mas deve passar para a histórica como ensaísta.

É a parte menos perecível de sua obra, segundo a crítica americana.

Sua obsessão era interpretar o império americano, principalmente numa época em que a ideia de nação caminhava para o ofuscamento, de acordo com o escritor.

Não foi à toa que Vidal ganhou o National Book Awards, um dos principais prêmios norte-americanos, por "United States Essays 1952-1992", uma coletânea de 1.300 páginas e 140 textos jamais editada no Brasil.

A Segunda Guerra Mundial, da qual participara no Pacífico Sul, dera a Vidal o tema de seu primeiro romance ("Williwaw", 1946) e a chave para a sua interpretação dos Estados Unidos.

Em 2006, no ensaio "American Empire", ele sintetizou o que achava dos EUA: "Truman e amigos aprenderam e nunca esqueceram uma importante lição: é por meio da guerra e da militarização que nos tornamos prósperos com pleno emprego".

Harry Truman (1884-1972) foi presidente logo após a Segunda Guerra (1945-1953) e forjou a Guerra Fria -a divisão do mundo entre dois impérios: os EUA (capitalista) e a União Soviética (comunista)-, impulsionada por gastos militares crescentes.

Ele achava que Franklin Roosevelt (1882-1945), presidente entre 1933 e 1945, tinha provocado os japoneses a atacar Pearl Harbor com o objetivo de criar uma guerra e impulsionar a economia, como diz no documentário "Why We Fight" (Por que Nós Lutamos), de 2005. Com o ataque, em 1941, os EUA passam a investir pesadamente em armas e tornam-se dependentes dessa indústria para crescer.
Vidal dizia que nascia ali a nova perversão da democracia americana: cobrar muitos impostos dos civis e muito pouco das corporações.

Essa visão belicosa da história tem raízes familiares. O pai de Vidal era professor de aeronáutica da Academia de West Pont, a mais prestigiosa dos EUA, e o próprio escritor estudara engenharia aeronáutica na Universidade Harvard, em 1943.

Vidal não fazia segredo que fora em Harvard que havia forjado a sua visão da história. "Eu trabalho com ideias que formei em Harvard anos atrás. Eu não tenho uma ideia real desde que entrei nisso", disse, com um misto de sinceridade chocante e autopromoção calculada.

Nos ensaios, Vidal se via como um continuador de Edmund Wilson (1895-1972), um dos maiores ensaístas norte-americanos.

Era uma maneira nada sutil de se incluir entre os maiorais.

Atraso e feijoada despertaram ira do autor no Brasil
 
DE SÃO PAULO


Em março de 1987, Gore Vidal desembarcou no Brasil a convite da editora Companhia das Letras, da Unicamp e da Folha.

O escritor veio da Itália com seu companheiro, Howard Austen.
Para aceitar o convite, ele exigiu passagens de primeira classe, estadias em hotéis de luxo e festas de recepção.

Os incidentes ocorridos durante a visita de Vidal são narrados em dois divertidos textos que o editor Luiz Schwarcz publicou no blog da Companhia.

As confusões (e a ira do autor) começaram já no aeroporto, quando problemas de conexão no Rio atrasaram o desembarque em São Paulo em algumas horas.

Pouco depois, na entrevista coletiva no hotel Ca' D' Oro, Vidal irritou os jornalistas com seu costumeiro estilo mordaz. "Eu vim aqui como emissário secreto do FMI", ironizou à época.
Ele deu palestra na Folha no dia 23. Depois do evento, o então repórter do jornal Nelson Ascher enfureceu Vidal ao defini-lo como "o mestre das gags prontas".

Vidal também teve problemas com a culinária. Depois de experimentar uma feijoada pela primeira vez, numa recepção feita em um sítio, o escritor passou um bom tempo no banheiro.

Análise romances


Obra semeia dúvidas férteis sobre a história de um império
 
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA


A série que Gore Vidal produziu sob o título de "Narrativas do Império" é um desafio radical e inteligente aos lugares-comuns que marcam as referências à história dos EUA.
Ela é composta por sete volumes que cobrem a vida política e social do nascimento da nação até o fim do chamado "século americano", o 20.

Infelizmente, não alcançou o período posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001 e à crise do "subprime", com suas consequências, quando se vivencia o declínio relativo do "império".

Em todos os livros ("Burr", "Lincoln", "1876", "Império", "Hollywood", "Washington, DC" e "A Era Dourada"), sobressaem seu ceticismo e senso crítico agudo -ambos fora da curva de entendimento que os próprios americanos têm de si mesmos.

Além de colocar em questão, saudavelmente, as presunções de grandeza e correção política da vida nacional americana, eles trazem ao leitor de qualquer nacionalidade um problema essencial da história: é possível recuperar a verdade do que ocorreu no passado e, caso não seja, como Vidal indicava, como escolher versões da história "mais verdadeiras"?

O que se depreende dessa leitura é que Vidal optou por releituras dos fatos que ampliassem ao máximo perguntas sobre o que é estabelecido como oficial, com o objetivo de despertar consciência.

Embora não tenha sido um historiador (foi basicamente um autodidata), Vidal fez muita pesquisa para escrever seus romances históricos e se engajou em combates com os profissionais da área em defesa de várias de suas muito controvertidas teses, como a de que o presidente Abraham Lincoln sofria de sífilis.

Apesar da disposição para o embate sobre a acuidade de seus relatos históricos (para qualquer tipo de embate, de fato), Vidal provavelmente pouco se importava com ela: o que lhe interessava era desafiar certezas estéreis e semear dúvidas férteis.
 
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é editor da revista "Política Externa" e autor de "Correspondente Internacional"

Análise vida pública

Porta-voz da autocrítica americana, intelectual deplorava intervencionismo
 
ALEXANDRE VIDAL PORTO
ESPECIAL PARA A FOLHA


Gore Vidal tinha tudo para ser presidente dos Estados Unidos: ambição, carisma e contatos.
Desde criança, interessava-se por história e, durante a adolescência, lia regularmente para o avô cego que cumpria mandato como senador do Partido Democrata.

Suas leituras favoritas eram a Constituição americana e a Declaração dos Direitos dos Cidadãos.
Nessas leituras, Vidal travou contato com a descrição de uma América modelar, fundada em princípios ideais de igualdade e justiça social.

Aos 17 anos, em 1942, alistou-se no exército. Aos 20, iniciou uma precoce e bem recebida carreira literária.

No entanto, na publicação de seu terceiro livro, "A Cidade e O Pilar" (1948), deu-se conta de que a América idealizada que aprendera com o avô não existiria para ele e jamais lhe pertenceria.
"A Cidade e O Pilar" conta a história de Jim Willard e sua descoberta e autoaceitação como homossexual.

O livro lhe deu fama, mas estigmatizou-o e causou seu banimento dos suplementos literários de jornais como o New York Times, onde foi barrado durante anos. Mais que isso, a identificação de Gore Vidal como homossexual inviabilizou as possibilidades de sua carreira política.

Ele se candidatou a deputado por Nova York em 1960 e a senador pela Califórnia em 1982, mas não se elegeu.

A América de oportunidades iguais para todos não existia para um homossexual como ele. Haveria, portanto, de contruí-las. Passou a vida comportando-se como se tivesse um papel presidencial a desempenhar na formação de seu país.

Tornou-se o intelectual público, com opiniões sobre todos os temas da agenda política e social americana e as expressava com elegância, inteligência e argúcia. Tornou-se uma espécie de porta-voz da autocrítca nacional.

Assumiu as funções de cronista do que identificava como o processo de degradação americana. Enxergava os EUA conduzidos por presidentes ineptos e com uma população politicamente ignorante e desinteressada. Antes de morrer, previa que ainda se instalaria uma ditadura militar no país.
Ao "Paris Review" declarou que "esperava viver suficiente para ver uma democracia sexual na América".

Criticou todos os presidentes americanos sob os quais viveu, especialmente os republicanos Ronald Reagan e George W. Bush, que detestava.

Deplorava o intervencionismo americano e afirmou à revista "Vanity Fair" que os ataques de 11 de setembro eram consequência da política externa imperialista dos EUA no Oriente Médio.
Ainda assim, é possível dizer que Vidal amava os EUA profundamente e que dedicou a vida a apontar caminhos para sua restauração.

Ele minimizava a importância da homossexualidade em sua vida. Uma de suas frases mais citadas é: "não existem pessoas homossexuais, apenas atos homossexuais".

Ainda assim viveu com seu companheiro Howard Austen por décadas e, no primeiro volume de suas memórias, "Palimpsesto", afirma que jamais amou ninguém como a Jimmy Trimble, seu colega de escola com quem teve um envolvimento romântico e a quem dedicou "A Cidade e O Pilar", ao lado de quem, aliás, passará a eternidade, enterrado no cemitério de Rock Creek, em Washington.
 
ALEXANDRE VIDAL PORTO, 47, é mestre em direito por Harvard, diplomata e autor de "Matias na Cidade" (Record)
FOLHA DE S.PAULO
02/08/2012 

sábado, 28 de julho de 2012

Of Monsters and Men - Little Talks

A Charge nossa de cada dia - Duke

Django Django - Waveforms

A Charge nossa de cada dia - Flávio

Roxy Music - Love Is The Drug

' Analfatóteles’ - JOSÉ MIGUEL WISNIK

Tom Zé sabe tirar um ótimo partido dos efeitos mirabolantes e amalucados da sua argumentação cancional

A Fonte da Nação, em Irará, devia ter convênio com a fonte da eterna juventude, a julgar pelo novo disco que Tom Zé está lançando, “Tropicália lixo lógico”. É um CD de tese. Depois de já ter mostrado como a bossa nova nos lançou definitivamente na modernidade, ao reverter a nossa monocultura agroexportadora em arte de exportação (“Vaia de bêbado não vale”), agora canções frescas e deliciosas como “Capitais e tais”, “Amarração do amor” e “De-de-dei xá-xá-xá” vêm entremeadas de canções conceituais como “Apocalipsom A”, “Tropicalea jacta est”, “Marcha-enredo da creche tropical”, “Tropicália lixo lógico” e “Apocalipsom B”. Nelas, é a Tropicália que aparece como a “moleca esperta” que nos fez saltar da Idade Média diretamente para a Segunda Revolução Industrial, ao fundir a cultura oral do Recôncavo e do sertão baiano, cunhada numa ancestral lógica não ocidental, com uma versão alterada da lógica aristotélica, disparada pelos estímulos do mundo eletrônico, da física quântica, da semiótica, do rock e da antropofagia oswaldiana nos anos de 1960.

Segundo Tom Zé, a “placa virgem e faminta” do cérebro infantil guarda poderosamente, especialmente nos primeiros anos, informações do mundo circundante e, no caso dos baianos, da cultura árabe nordestinizada, de cheganças, desafios e repentes, da poética provençal traduzida em cancioneiro popular, tudo vertido em pensamento e sensibilidade de tipo oral, com seu correspondente substrato não verbal. Quando as crianças chegam à escola, expostas e submetidas ao letramento e à lógica aristotélica, essa outra lógica da oralidade é supostamente neutralizada, embora guardada em regime recessivo no hipotálamo.

A teoria do “lixo lógico” é que as informações contemporâneas de então, da poesia concreta, do teatro de Zé Celso, do cinema de Glauber (ele mesmo um “analfatóteles” como Caetano, Gil  , Torquato , Capinam e o próprio Tom Zé) excitaram o padrão lógico latente no hipotálamo, fazendo-o vazar para o córtex cerebral e disparando a verdadeira pororoca mental (para usar uma imagem amazônica) que produziu o movimento da Tropicália. É esse mito que as canções contam, com uma trama sonora cortante, excitante, inteligente, e com as participações de Emicida, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante e Pélico (para confirmar que a fonte da juventude continua a jorrar).

Tom Zé sabe tirar um ótimo partido dos efeitos mirabolantes e amalucados da sua argumentação cancional, pontilhada de frases latinas, citações eruditas, exemplos científicos e referências literárias. Se não soa racionalmente comportada, é claro, é porque confirma, então, o caráter não estritamente aristotélico e múltiplo do “lixo lógico” que é o seu alimento criativo (“quod erat demonstrandum”). Os estranhamentos produzidos estão sob afiado controle, e são do mesmo tipo daqueles que se expandem nos seus shows e na genial entrevista da “Bravo!”, que converte o gênero jornalístico em sensacional teatralização das próprias agudezas, fraquezas expostas e pulos do gato (que a revista soube muito bem incorporar à edição). Tom Zé toma pra si o poder de dizer e acontecer, e faz no final
uuma hilariante paródia exemplar do desejo que certa imprensa tem de extrair dele desabafos críticos contra parceiros: “Ô, Neusa, o moço resolveu me atiçar. Quer que eu desça a lenha em Deus e todo mundo. Não tem problema. Bote o gravador mais perto de mim. Lá vai: tropicalismo, tu é feio! Tu é sem vergonha! Tu é descarado!”

A propósito, transcrita toda na primeira pessoa, omitindo as perguntas que lhe são dirigidas, que deduzimos da sua própria fala, a entrevista desperta como esquema discursivo um
longíquo e engraçado “efeito Riobaldo”, vindo desse sertanejo baiano que expõe, de certa forma, a nós as ruminações sobre a história que viveu. Essa associação livre me leva a dizer algo que sempre me despertou a atenção: tanto Tom Zé quanto Guimarães Rosa são filhos de comerciantes que passaram a infância ouvindo, na loja do vilarejo, que se confundia com suas casas, as falas narrativas e poéticas da linguagem oral do sertão que acorria, de todas as partes, para a venda local. Não estou
preocupado aqui com as diferenças evidentes entre eles. Mas em dizer que m  Guimarães Rosa
também pode ser incluído na categoria dos “analfatóteles”, sertanejos remixados na urbe, supraletrados que deslocam a lógica aristotélica ao submetê-la, com todas as consequências disso, aos jogos e paradoxos de sons e sentidos, às outras dimensões do mundo não letrado, ao qual Tom Zé permaneceu sempre fiel, como marca renitente e escolhida da sua diferença e da sua integridade.

Aliás, para quem conta, como ele, ter presenciado o espanto da chegada a Irará da água encanada, da lâmpada elétrica e do advento quase miraculoso da latrina de porcelana inglesa, o salto da Idade Média à Segunda Revolução Industrial descreve, antes de mais nada, e mais do que a ninguém, a sua própria trajetória singular, sem deixar de ser um achado sobre a multiplicidade de tempos e de lógicas que se combinam na trama cultural brasileira, e que têm no movimento tropicalista um momento de excepcional eclosão.

Tom Zé quintessenciou o poder da interação pelo jogo, a alegria e a provocação contidas na nossa vontade de brincar, que ele desperta e desafia com seus riffs polifônicos, com suas inesgotáveis invenções sonoras, estribilhos e bordões (“onde botam ovos as canções”).
O GLOBO
28/07/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cibelle & Devendra Banhart - London London

Humor

Sigur Rós - Rembihnútur

A Charge nossa de cada dia - Marcio Moura

The Vaccines - No Hope

As ideias não correspondem mais aos fatos

Arnaldo Jabor - Estado de SP
 
O tempo atual é Renascença ou Idade Média? Os acontecimentos estão inexplicáveis, pois a barbárie das coisas invadiu o mundo dos homens. Temos um acesso a informação infinita, mas nada se fecha em conclusões coerentes, nada acaba, nada se define.
O socialismo não deu certo, o capitalismo global não trouxe paz nem progresso, tudo que depende da vontade dos homens e de seus sonhos de controle, não chega a um final feliz. As coisas têm vida própria e seus criadores não controlam mais os produtos. O mundo é cada vez mais uma tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem. Cada vez temos mais ciência e menos entendimento. As teorias não deram certo e percebemos hoje que Kafka e escritores do início do século 20, como Mann, Musil, depois Beckett e Camus sacaram o lance. Esperando Godot é mais profundo e profético que 100 anos de ilusões políticas.
Hoje, viramos objetos de um "sujeito" imenso, sem nome, sem olho, misterioso, que talvez só entendamos depois do tempo esgotado, quando for tarde demais. Essa é a sensação dominante.
Por que estou com essas angústias filosóficas hoje? Bem... porque no Brasil também estamos diante do dilema: Renascença ou Idade Média, progresso ou regresso?
A rapidez do mundo atual, para o bem e mal, nos deixa para trás. Vivemos uma modernidade veloz e falamos discursos antigos. As ideias não correspondem mais aos fatos, como cantou Cazuza.
Hoje as palavras que eram muros de arrimo foram esvaziadas de sentido. Uma palavra que era pau para toda obra: "futuro". Que quer dizer? Antes, 'futuro' era um lugar onde chegaríamos um dia, que nos redimiria de nossos sofrimentos no presente. Agora o termo 'futuro' tem uma conotação incessante, como se já estivéssemos nele. Estamos com saudades do presente, que nos escapa como um passado. O presente se esvai e o futuro não para de 'não' chegar.
Outra palavra: "Felicidade." Ser feliz hoje é excluir o mundo em torno. Ser feliz é uma vivência pelo avesso, pelo "não". Ser feliz é não ver, não pensar, é não se deixar impressionar pelas desgraças do País ou dos outros.
Outra: "Miséria." A miséria sempre nos foi útil. Diante dela tínhamos a vantagem, a riqueza da "compaixão". Era doce sentir pena dos infelizes. Hoje, diante das soluções impossíveis, temos uma espécie de raiva, de irritação nobre, bem 'ancien regime' contra os desgraçados. Ficamos humilhados diante da impotência de soluções. O pobre virou um 'estraga-prazeres'. E os nomes?
Que nome daremos ao desejo de extermínio que brota nos cérebros reacionários? Exterminar bandidos - e excluídos também?
E que nome daremos à paralisia da política brasileira, ao imobilismo das reformas, o absurdo desinteresse pelos dramas do País? Que nome daremos ao ânimo do atraso, à alma de nossa estupidez? Que medula, que linfa ancestral energiza os donos do poder do atraso, que visgo brasileiro é esse que gruda no chão os empatadores do progresso e da modernização? Vivemos sob uma pasta feita de egoísmo, preguiça, escravismo colonial. Que nome dar a essa gosma que somos?
Que nome dar às taras de nossos intelectuais incompetentes? São dois tipos básicos que surgem: o gênio inútil e o neocretino. O gênio inútil sabe tudo e não faz nada. O neoidiota tem certezas sem saber nada.
E que nome daremos a esse bucho informe que a miséria está criando nas periferias?
Como chamar esta nova língua, este novo "bem" dentro do "mal"? Não é mais "proletariado" ou "excluídos" apenas. Surge uma razão dentro da loucura. Parece um país paralelo esfarrapado, com cultura própria, com uma ética produzida pela fome e ignorância.
E na política? Quem somos, o que somos? Neoliberais, velhos radicais, neoconservadores, progressistas reacionários, direita de esquerda ou, hoje no poder, 'esquerdismo de direita'?
E a palavra chave de hoje: 'democracia.' Que é isso? Que quer dizer? No Brasil, democracia é lida como tolerância, esculacho, zona geral. Democracia, que é o único sistema 'revolucionário' a que devemos aspirar, é a melhor maneira de espatifar o entulho arcaico, corrupto, patrimonialista que o Estado abriga. A única revolução que se faria no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios e clientelismo, um Estado que só tem para investir 1,5 do PIB. A única revolução seria administrativa, apontada na educação em massa, nas reformas institucionais, já que, graças a Deus, a macroeconomia foi herdada do FHC e o Lula teve a esperteza de mantê-la, graças ao Palocci, que salvou o País.
Só um choque de livre empreendimento pode mudar o Brasil. Mas esta evidencia é vista com pavor. Como aceitar o óbvio, que o Estado, nas últimas décadas, congestionado, moribundo, só tem impedido o crescimento? Isso vai contra os velhos dogmas dos intelectuais... A maioria dos críticos sociais e culturais prefere morrer a rever posições. O recente caso do Paraguai é vergonhoso. Protestam pelo 'golpe', como se o Lugo fosse um grande líder, quando todo mundo sabe que era uma espécie de Berlusconi tropical; ignoram o fato de que a Constituição deles previa um 'impeachment' como esse e abrem caminho para que o fascista Chávez comece a provocar o Mercosul junto com a espantosa Cristina Botox que está destruindo a Argentina. Como perguntou alguém outro dia: 'Quando nossos intelectuais de esquerda vão denunciar pelo menos a Coreia do Norte?'
A verdade é que para eles a democracia parece lenta e ineficaz. Como disse o Bobbio: O ódio à democracia une a esquerda e direita. Querem um autoritarismo rápido, que mude "tudo isso que está aí". Esse episódio do Paraguai, que a presidente Dilma visivelmente teve de aderir de má vontade, por imposição dos 'cucarachas' fascistas, aponta para uma restauração da velha febre anti-imperialista que justifica e absolve a incompetência da América Latina. E tudo isso apoiado por picaretas neomarxistas como o showman Slavoj Zizek e alguns babacas daqui.
A América Latina está com fome de autoritarismo, que é bem mais legível para os paranoicos.

domingo, 15 de julho de 2012

MARCELO GLEISER A ilusão do saber

Folha de S. Paulo, 15/7/2012
Tanto Newton quanto Maxwell estavam certos: a luz é tanto uma partícula quanto uma onda
 
Muitas vezes o familiar oculta os maiores mistérios. Esse é o caso da luz, um fenômeno tão comum que quase ninguém dá muita bola para ele. Acordamos com ela todos os dias, ligamos e desligamos lâmpadas com descaso, raramente refletindo sobre a sua natureza, sobre o que está por trás dessa intensidade visível, porém impalpável, etérea, porém concreta, discreta, porém essencial.
No seu tratado sobre a luz intitulado "Óptica", publicado em 1704, Isaac Newton defende sua crença de que a luz é constituída de pequenas "partes": "Não são os raios de luz corpúsculos diminutos emitidos por corpos brilhantes?", pergunta. Sugere, além disso, que a luz viaja com velocidade finita, fazendo referência aos resultados de Ole Roemer, o qual, em 1676, mediu a velocidade da luz usando o eclipse de Io, uma das luas de Júpiter.
Em 1865, James Clerk Maxwell publicou o tratado "Teoria Dinâmica do Campo Eletromagnético", no qual descreve a luz como ondulações do campo eletromagnético.
A teoria explica conjuntamente a eletricidade e o magnetismo como manifestações do campo eletromagnético: uma carga elétrica produz um campo elétrico à sua volta, como cabelos rodeando uma cabeça. Tal como a gravidade, seu efeito cai com o quadrado da distância. Campos magnéticos são gerados quando cargas elétricas são aceleradas.
Uma rolha oscilando numa piscina cria ondas circulares. Imagine que a rolha é uma carga elétrica; ao oscilar, ondas eletromagnéticas são irradiadas concentricamente. (A carga as emite em três direções, e não duas.) Se a rolha subir e descer rápido, as ondas estarão próximas, terão frequência alta; se lentamente, a frequência será baixa.
Algo assim ocorre com as ondas eletromagnéticas, que podem ter altas e baixas frequências: o que chamamos de luz visível é um tipo de onda com frequências entre 400 e 790 Terahertz (1 Terahertz=1.012 ciclos/segundo). Já os raios X e gama têm frequências bem mais altas, enquanto o infravermelho e as micro-ondas têm frequências mais baixas.
Maxwell imaginou que, tal como ondas na água ou de som, a luz precisasse de um meio para se propagar. Esse era o estranho éter: transparente, imponderável e muito rígido, uma quase impossibilidade. Mas todos acreditavam nele, mesmo após os experimentos de Michelson e Morley não o terem encontrado.
Só em 1905 o jovem Einstein descartou o éter com a sua teoria da relatividade: ao contrário de todas as outras, as ondas eletromagnéticas podem se propagar no vazio. (É possível que ondas gravitacionais também o façam, assunto que fica para outra semana.)
Para complicar, a luz não tem massa. "Como algo que não tem massa pode existir?", perguntaria o leitor. Em física, energia é mais útil que massa. E a luz tem energia, podendo ser descrita como onda ou partícula: Newton e Maxwell estavam corretos. As partículas de luz, os fótons, têm energia proporcional à frequência. (Vê-se logo a estranheza: uma partícula com frequência, que é propriedade de onda!)
Lembro-me das palavras de Daniel Boorstin: "O maior obstáculo à novas descobertas não é a ignorância; é a ilusão do saber". Mesmo que saibamos tanto sobre o mundo, sabemos ainda tão pouco.
 
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".

A Charge nossa de cada dia - Aroeira

Quem não é? LUIS FERNANDO VERISSIMO

O Tribunal Federal da Suíça afirmou, num documento recém-publicado, que João Havelange e Ricardo Teixeira receberam suborno para influenciar a Fifa na decisão de quem faria a transmissão das Copas do Mundo de 2002 e 2006 e em outros acordos da Fifa e da CBF. O documento custou a ser publicado porque os advogados da Fifa argumentaram, em defesa de Havelange e Teixeira, que o pagamento de suborno é prática comum na América do Sul e na África, onde a propina faz parte do salário “da maioria da população”. Foi publicado agora porque o presidente da Fifa, Joseph Blatter, que deve seu cargo ao Havelange, resolveu usar seu ex-chefe e Teixeira como exemplos de que está combatendo a corrupção. Antes abraçava os dois e seu esquema, agora os apunhala pelas costas com o relatório finalmente liberado da justiça suíça. Gente fina.

Você, eu e a maioria da população brasileira teríamos motivos para nos indignar com a afirmação de que nosso salário é normalmente reforçado por propina, vinda sabe-se lá de onde, e que Havelange e Teixeira só estariam sendo um pouco mais brasileiros do que o normal. Mas nos mesmos jornais que trazem a notícia da denúncia de Havelange e Teixeira e a revelação de que a Fifa nos considera todos corruptos lemos que o suplente do Demóstenes Torres, cassado pelas suas ligações com o Carlinhos Cachoeira, também tem ligações com o Carlinhos Cachoeira, além de precisar explicar por que deixou de declarar boa parte do seu patrimônio ao fisco. Fica-se com a impressão de que a Fifa tem razão.

Me lembrei do texto que escrevi certa vez sobre a visita de uma comissão a um manicômio. A comissão é recebida por uma recepcionista, que passa a dar instruções desencontradas sobre como chegar ao gabinete do diretor – “Entrem por aquele corredor marchando de costas e cantando a Marselhesa” – até que vem um médico buscá-la, explicando que trata-se de uma louca que pensa que é recepcionista. Mas o médico não é médico, também é um louco passando por médico, e que é levado por um segurança. Que não é um segurança, é outro louco que declara ser sobrinho-neto do Hitler, e é levado por um enfermeiro para o seu quarto. Mas o enfermeiro também não é enfermeiro, é um louco que etc, etc. A comissão finalmente chega ao gabinete do diretor – ou alguém que pode ser o diretor ou um louco que se passa pelo diretor. Como saber se é o diretor mesmo?

– Não há como saber – diz o possível diretor. – Nem eu sei. Mas temos que supor que eu sou o diretor e não outro louco. Senão isto aqui vira um caos!

Temos que supor que nem todos são corruptos, ou afilhados reais ou simbólicos do Carlinhos Cachoeira. Senão isto aqui fica ingovernável. 


O Globo
15/07/2012

Nasser Come on

Você não sou eu - ANNA MUYLAERT

Arquivo aberto
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Você não sou eu

Rio, 1984
 
ANNA MUYLAERT

No início dos anos 80, aos 18 anos, tranquei a faculdade de cinema na USP por seis meses.
Patrocinada pela família, fui morar em Paris, onde via filmes diariamente, fazia listas e anotações, na tentativa de elaborar um projeto ou um discurso cinematográfico que eu não sabia qual era.

Embora minha determinação de dirigir filmes fosse grande, eu ainda era feita, como todo adolescente, "da mesma matéria dos sonhos". Foi neste contexto de cinefilia e busca de identidade que deparei com um filme do alemão Wim Wenders, diretor que despontava na época.

Era "Alice nas Cidades".

A experiência foi impactante: senti como se tivesse encontrado todas as respostas para as minhas perguntas juvenis. E, como é próprio do adolescente, Wim Wenders virou meu ídolo: eu me esforçava para ler em francês tudo sobre ele e seus filmes, comprava pôsteres, assistia às mostras.

Passei a sofrer do que o crítico Harold Bloom chamaria da "angústia da influência".

Terminado o semestre, voltei ao Brasil, pendurei os pôsteres no quarto e voltei para a escola. Não muito depois, ouvi a notícia de que Wenders viria mostrar na sessão de abertura do Festival do Rio o seu novo filme, "Paris, Texas".

Fiquei enlouquecida diante da hipótese de conhecê-lo pessoalmente. Inscrevi meus curtas da Escola de Comunicações e Artes em uma mostra paralela do festival, com o objetivo de mostrá-los ao meu ídolo. Lutei, com sucesso, por um convite para a sessão de abertura. E fui para o Rio.

Na noite da abertura, coloquei meu melhor vestido e o vi pela primeira vez, no palco, apresentando o filme. A sala ficou escura e começou a projeção daquela obra-prima, à qual assisti com um olho na tela e o outro no balcão, onde o Wenders estava sentado.

Quando a sessão acabou, todos se dispersaram, e ele sumiu pelo corredor afora.

Decepcionada, fui para o bar da piscina do Hotel Nacional. Cheguei no balcão para pedir uma bebida quando se aproximou de mim, em tom de paquera, o ator Denis Hopper -o amigo americano em pessoa.

Eu, lógico, dei bola, e ele me convidou para sentar na mesa dele. Que, descobri logo em seguida, era a mesa de Wim Wenders.

Sentei-me com aquele sorriso de quem vive um milagre secreto, mas disfarcei a emoção, tentando não parecer só uma tiete, embora fosse exatamente isso.

Tiramos fotos e falamos trivialidades. Tentei puxar assunto, dar opiniões inteligentes.
Por mais que eu me esforçasse, ele me tratava como uma local bonitinha que poderia ser útil no trato com o garçom. Não foi antipático, mas agia como se eu fosse criança. Vivi uma agonia crescente, até que resolvi dar o fora e encerrar aquele vexame particular.

Antes de partir, tive a cara de pau de pedir a ele que visse meus curtas no festival, ao que ele, solícito, pediu que eu anotasse num papel o nome dos filmes. Então ele também recomendou um curta e, como eu, anotou o nome.

Eu me despedi, levantei e parti. Já no lobby do hotel, quando li o que ele tinha escrito no papel, quase cai para trás. "You are not I". Estava escrito: " Você não sou eu".

Então veio a revelação. Ele tinha toda a razão, eu não era ele, era mesmo apenas uma criança e, de repente, estava livre. Livre da angústia da influência, livre do ídolo, livre para buscar um caminho que fosse meu.

O grande encontro não tinha acontecido, mas sim algo muito maior. E Wim Wenders tinha deixado de ser um ídolo para se tornar um mestre.

Folha de S.Paulo
15/07/2012 


Bloc Party - Octopus

Barbara Gancia - Meu pacto com Woody Allen

Fantástico esse Woody Allen, não? Pode ir formando na sua mente a imagem do cineasta metido numa fantasia de coelhinho da Duracell batendo dois pratos dourados nas mãos, a rodar. Sem parar, rodando e batendo, rodando e batendo... Ele é tão extraordinário que outro dia eu decretei aqui a sua morte e agora já o estou ressuscitando, dando uma polidinha no coelho, levantando suas orelhinhas e colocando o bicho de novo para funcionar.

Da vida nada se leva, curta o momento, veja a beleza nas pequenas coisas. Não há significado maior em nada ou coisa qualquer que valha a pena, que dirá algo que venha nos dar a real dimensão do sofrimento ou a mesquinhez que enfrentamos nesta vida terrena. Desde "Vicky Cristina Barcelona", Woody Allen vem nos preparando para seu ocaso. Parece nos dizer: "Olha, não há mais nada pelo que se agitar. Eu já fiz os filmes que queria.

Se desejam mais, vocês podem ir procurar em outro canto, porque deste mato não sai mais coelho. Mas podemos fazer o seguinte: eu preciso continuar em movimento, odeio a ideia da morte. E vocês não conseguem abrir mão daquelas duas horinhas de prazer que eu proporciono a cada ano ou dois. Então a gente pode fechar assim, sem maiores compromissos: nos encontramos na sala de cinema de tempos em tempos, vocês não me cobram demais nem eu me esforço até enfartar, pode ser?".

Quer saber? Por mim está de ótimo tamanho. Antes Woody Allen em um dia ruim do que um "Transformers" tinindo de bão. Tome, sr. Allen, leve meu dinheiro, pode levar todinho. "Meia-Noite em Paris" foi um filme desleixado, feito com a grana do governo Sarkozy para mostrar a Carla Bruni? Tudo bem, o próximo não será.

E, de fato, eu já fui sabendo que não iria ver nenhum "Annie Hall" e tive uma noite muito agradável assistindo a "Para Roma Com Amor".

Woody encontrou um jeito de seguir adiante. Chega a ser heroico que um cara que todo o público identifica com seus personagens consiga continuar a manter uma distância entre aquilo que é real e o que não é depois de todos os escândalos que aconteceram em sua famosa vida pessoal. Diria que é para lá de respeitável que ele tenha conseguido sobreviver a isso tudo, à quase falência e ainda ouse dirigir filmes. No mínimo, estamos falando de um sujeito singular e equilibrado que merece ser celebrado.

Está certo que há momentos, especialmente desde "Vicky Cristina Barcelona", que um filme de Woody Allen chega a parecer aquelas festas tradicionais da Amazônia ou do Maranhão, ou mesmo desfile de escola de samba, patrocinados por marca de sabão em pó ou secretarias de Cultura de Estado, sabe?

A gente tem ciência de que Woody Allen entrou em franca decadência e ele não nega, estamos nisso juntos. Mas é charmoso e uma anedota bem mais engraçada do que o homem que só canta ópera no chuveiro que ele se proponha a discutir a inutilidade da celebridade quando é justamente do que restou dela que ele agora está ganhando o pão de cada dia. Artisticamente, Woody Allen nunca foi disso. Mas o mundo está que é um badulaque só.

Eu mesma hoje estou aqui provando por a mais bê que papel aceita qualquer desaforo. Aceita ver uma coluna seguida de outra renegando tudo o que foi escrito há 15 dias. Woody tem razão. Tudo já foi dito, pintado, cantado, recitado, filmado e escrito. Que tal apenas relaxar e curtir o momento?

Revista SP
Folha de S.Paulo
15/07/2012

The Shins - It's Only Life

Transtornos e desordens - João Ubaldo Ribeiro

De uns tempos para cá, é cada vez mais forte a tendência a não se ver o indivíduo como responsável pelos próprios atos. No terreno da ciência social esquerdoide, o sujeito é assaltante porque lhe faltaram oportunidades, não teve educação, vive numa sociedade consumista, foi vítima de bullying e mais quantos indicadores se concebam, em pesquisas cujos resultados são definidos pela própria formulação e, muitas vezes, não passam de manipulações pseudoestatísticas, destituídas de base sólida. Enxergam-se relações de causa e efeito inexistentes, que resistem até mesmo à óbvia verdade de que a ampla maioria dos que enfrentaram e enfrentam essas situações não é de delinquentes.

No terreno da psicanálise de boteco, o sujeito surra mulher e filhos porque foi também surrado, principalmente pela mãe. Ou - pois a psicanálise de boteco tem o condão de adaptar suas explicações e a causa que, num exemplo, surte determinado efeito em outro surte efeito contrário - porque não foi surrado e nem sequer advertido e, assim negligenciado pela mãe, nutre amor e ódio pela figura materna, na qual desconta seus recalques baixando a porrada na santa mãe de seus filhos, os quais também apanham porque dividem as atenções da dita figura materna. Ou qualquer outra especulação asnática, das muitas que volta e meia ainda ouvimos.

Agora, por meio da entusiástica colaboração de cientistas, psiquiatras e, principalmente, fabricantes de drogas psicoativas, vamos ingressar definitivamente na era em que qualquer comportamento ou qualquer emoção serão vistos como uma doença mental, no sentido mais lato do termo. Aliás, pouco se tem usado a expressão "doença mental". O chique agora, que repetimos como papagaios bem ensinados, é "transtorno", "desordem" ou "distúrbio". Sabemos que certamente a maioria dos psiquiatros e das psiquiatras, bem como a maioria dos cientistos e cientistas, embora talvez não a maioria dos fabricantes e fabricantas de drogas, não é constituída de enganadores venais e inescrupulosos, que tomam dinheiro dos fabricantes para promover a vendagem bilionária de remédios.

Mas muitos e muitas são (está certo, vou parar com este negócio de flexionar os gêneros de tudo, sei que é chato; mas é só porque quero mostrar como certas coisas enfeiam e aleijam nossa já tão perseguida língua portuguesa) e a bandidagem deles combinada vai de vento em popa.

O número de transtornos e desordens aumenta exponencialmente e já se observou que, anunciado um novo mal, de que antes não havia relato, logo surgem novos "pacientes", gente que agora padece de síndromes também antes nunca descritas. E os males do espírito, digamos, muitas vezes não geram sintomas físicos, ou, se geram, são de difícil definição etiológica, de forma que o diagnóstico vira conceitual e subjetivo: eu acho que você está deprimido porque acho que seu quadro configura o que eu acho que é depressão.

Não há mais preguiça, há transtornos ou desordens de atenção, de motivação, de interação social, de tudo o que se possa imaginar. Não há mais agressividade, rudeza no trato, timidez, temperamento calado, nada disso, só há transtornos e desordens. Quando expira a patente de uma droga, seu fabricante se apressa a criar, novamente com a ardorosa colaboração de cientistas e psiquiatras contratados ou subvencionados generosamente, uma nova doença, a que a mesma droga se aplique, mudando apenas de nome. Emoções antes normais em qualquer ser humano podem facilmente revelar-se transtornos ou desordens, conforme o freguês e a moda psiquiátrica corrente. Não se fica mais triste, fica-se deprimido. Não se fica mais ansioso pela antecipação de alguma coisa, fica-se com distúrbios de ansiedade. E para tudo há uma pílula.

Claro, chegaremos, se já não chegamos e ainda não nos demos conta, ao ponto em que todo indivíduo, se confrontado com um hipotético "padrão normal", será portador de vários transtornos, distúrbios e desordens. Qualquer acontecimento que afete suas emoções, seu estado de ânimo ou mesmo seu bem-estar físico deverá ser objeto de controle medicamentoso. Posso até imaginar que talvez já exista, e no futuro poderá prosperar, a figura do PP, o Personal Psychiatrist, não para receitar ou atender no consultório seu cliente milionário, mas para acompanhá-lo ao longo de todo o dia, ministrando-lhe a droga apropriada para a manifestação de qualquer de seus inúmeros distúrbios.

A infância, com a falsa descoberta de um número alarmante de bebês portadores de transtorno bipolar, passou a ser uma doença. Assim como, com toda a certeza, a puberdade, a adolescência, a jovem maturidade, a meia-idade e a velhice. Tudo doença, é claro, bola nisso tudo, bola em toda a existência, você é que pensa que é sadio, é porque não procurou direito sua doença. E, aliás, sugere a prudência que escolhamos logo nossos transtornos, desordens e distúrbios, porque do contrário poderemos estar sujeitos a que escolham por nós. E ninguém escapará, porque o objetivo é englobar toda a Humanidade.

O problema não é a ciência decretar que, de uma forma ou de outra, somos todos malucos. Isso todo mundo às vezes pensa. O problema é quando decidem qual é a nossa maluquice e nos forçam a uma "normalidade" que não queremos e não temos por que aceitar. A chancela da ciência pode ser adulterada. E não é impossível que, em determinadas situações, divergências com o Estado, ou com grupos de poder, acarretem muito mais que censura às artes e à imprensa. Podemos ser forçados a agir "normalmente" e considerados insanos, se discordarmos da normalidade oficial. Na União Soviética, houve tempo em que quem divergia do Estado era carimbado como doido varrido e encafuado num hospício. Tenho medo de não me encaixar na portaria da Anvisa que defina a normalidade e ser obrigado a tomar um Abestalhol por dia.
Estadão
O Globo
15/07/2012 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

God Help The Girl - Come Monday Night

The Enemy - Saturday

Eliane Cantanhêde - De rei a cão sarnento

BRASÍLIA - "Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, não fica nada", dizia Ivan Lins nos anos 1970, repetiu ontem Demóstenes Torres, o segundo senador cassado pelos seus pares em 188 anos.
Estava sendo contraditório. Se ele é "bode expiatório", como diz, não vai cair mais nenhum rei, nem de ouros nem de paus. Tudo como dantes.

Ontem mesmo, a Câmara começou a inocentar os deputados envolvidos de alguma forma nesse esquemão do Cachoeira que inundava o Centro-Oeste e respingava em toda parte. Só sobrou o tucano Carlos Alberto Lereia para contar a história - e ser julgado pelo Conselho de Ética.

Demóstenes, porém, não é só um rei a mais no castelo de cartas que começou a ruir em 29 de fevereiro, com a prisão de Cachoeira e a profusão de fitas. É um rei muito especial. Quanto mais alto, maior é o tombo. Demóstenes desabou do trono.

Como procurador, foi presidente do Conselho Nacional dos Procuradores Gerais de Justiça. Como senador, presidiu a poderosa Comissão de Constituição e Justiça. Filiado ao DEM, era líder do partido no Senado e potencial candidato a vice-presidente da República.

E, como arauto da ética e da moralidade, conquistou respeito e simpatia até mesmo no Supremo e na imprensa. Mas, ao ser cassado, era um ser absolutamente solitário -"cão sarnento". Tudo tinha, nada tem.
Se Renan, Sarney, ACM e Jader tiveram suas tropas de choque, Demóstenes morreu só e seu enterro foi sem choro nem vela. Nem ira nem comemoração, só silêncio. Desolador.

Demóstenes se vai e a CPI tende a ir atrás da campanha municipal, de palanques e holofotes, já que "a justiça foi feita" e o bode já expiou sua culpa. O resto? Deixa a polícia fazer. Reis, rainhas, cavalos e torres vão continuar deslizando em segurança no tabuleiro, até surgirem outros Demóstenes, outros Luiz Estêvão. Vai demorar. Caiu uma peça, vem o suplente aí. E o jogo continua.

elianec@uol.com.br
Folha de S.Paulo
12/07/2012

Duke Special - "Everybody Wants a Little Something"

Mash Up

"É mais fácil vencer um mau hábito hoje de que amanhã"
                            
                                                                 Confúcio

Mais vozes contra o Estado-anunciante - EUGÊNIO BUCCI

Há quase dois meses, no dia 17 de maio, neste mesmo espaço, apontei a distorção perversa trazida pelo recrudescimento do Estado-anunciante no Brasil. É bem verdade que não foi a primeira vez que toquei no assunto. Há pelos menos dez anos essa nova modalidade do patrimonialismo pátrio - o uso de verbas públicas para fins de propaganda partidária (que corresponde a interesses particulares) - vem crescendo a um ritmo que clama por atenção. No artigo de 17 de maio traduzi as razões de preocupação em números, com as cifras rombudas que as autoridades despejam anualmente no mercado publicitário. No mesmo artigo listei as razões pelas quais a hipertrofia do Estado-anunciante é, por definição, antidemocrática.

Agora peço licença ao leitor para insistir. O motivo é muito simples: de dois meses para cá, outros três articulistas - Fernando Henrique Cardoso, J. R. Guzzo e Vittorio Medioli - passaram a denunciar o mesmo problema, o que pode prenunciar algo de novo no horizonte.

Antes de relermos o que escreveram os articulistas, convém deixar bem claro por que é inaceitável a hipertrofia do Estado-anunciante. Ele se impõe como uma força unilateral, pró-governo, que desequilibra com o peso de milhões e milhões de reais as disputas eleitorais e a pluralidade do debate político no País. No limite, tende a sabotar o princípio da alternância no poder, uma vez que só existe para convencer o eleitor de que o governo em curso (qualquer que seja ele) é o melhor do mundo.

Tomemos o exemplo da cidade de São Paulo, que terá eleições para prefeito este ano. Aqui a Prefeitura pôs no ar, no primeiro semestre, uma campanha que mais parecia uma avalanche propagandística para entorpecer o cidadão. A pretexto de "informar" o contribuinte, as peças promocionais repetiram à exaustão o slogan "antes não tinha, agora tem", tentando provar que hoje o paulistano conta com serviços de saúde e educação deslumbrantes, esplêndidos, paradisíacos, gozosos como nunca teve.

Óbvio número 1: esse tipo de publicidade é propaganda eleitoral antes da abertura do período eleitoral regulamentar. É partidária, ostensivamente partidária. A publicidade governista, ainda que formalmente não descumpra a lei, não está propriamente em sintonia com os princípios que orientam a legislação eleitoral vigente. Fingindo "informar" o eleitor, faz campanha eleitoral explícita e antecipada, ainda que não fale de candidatos.

Óbvio número 2: todos os governos agem assim. Todas as prefeituras, todos os governadores dos Estados e, claro, o governo federal, que é incontestavelmente o campeão invicto nesse esporte nacional.

A solução para conter o Estado-anunciante é uma só: a lei teria de estabelecer, se não a proibição total, ao menos uma barreira sólida de contenção contra as despesas públicas em campanhas publicitárias pagas. Simples assim. Bem sabemos que o Congresso dificilmente tomará essa pauta como prioridade, pois os parlamentares, comprometidos com agendas partidárias, não vão espontaneamente contrariar o apetite que os governantes têm por visibilidade. Portanto, é preciso quebrar a inércia.

Para quebrá-la a mobilização deve nascer da opinião pública. De três semanas para cá, outras vozes passaram a falar contra o Estado-anunciante. Não exageremos com a esperança, mas talvez elas contribuam para um pouco de lucidez no ambiente político. Uma dessas vozes é a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No dia 3 de junho, um domingo, em sua coluna aqui, no Estado, nesta mesma página, ele escreveu: "Será que é democrático deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? (...) O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único impera sem contraponto".

O ex-presidente alerta para o peso que as verbas públicas adquiriram nos veículos de médio porte, que, muitas vezes, acabam se tornando dependentes dessa receita. Ora, se são economicamente dependentes das contas governamentais, eles talvez percam independência editorial quando se trata de criticar a administração pública. Também por isso, o Estado-anunciante hipertrofiado é indesejável na democracia.

A segunda voz que se levantou foi a de José Roberto Guzzo, ex-diretor e atual colunista da revista Veja. Em sua coluna de 6 de junho, sob o título Nós e os outros, ele definiu bem a distorção com que temos convivido, que seria repelida em qualquer democracia: "Dá para imaginar o governo da Itália, por exemplo, gastando fortunas na mídia para dizer 'Itália - um país para todos'? Ou algo assim: 'Prefeitura de Londres - antes não tinha, agora tem'? Não dá. O funcionário que sugerisse uma coisa dessas seria provavelmente encaminhado a uma instituição psiquiátrica".

Além de FHC e de Guzzo, Vittorio Medioli, ex-deputado federal por Minas Gerais, primeiro pelo PSDB e depois pelo PV, e proprietário da Editora Sempre, que publica os jornais O Tempo e SuperNotícias, em Belo Horizonte, argumentou na mesma linha. Em editorial publicado em O Tempo, de 10 de junho, Medioli afirmou: "O aspecto nefasto desse acintoso desperdício, que solapa verbas destinadas a quem as gerou (os contribuintes), paradoxalmente se verte contra os próprios, pois até um imberbe jovem compreende que essa mídia, além de cara, frauda uma realidade bem diferente e desequilibra eleições".

Que surjam outras vozes. Se a sociedade não falar, a propaganda governamental vai virar um monólogo no Brasil.

Estadão
12/07/2012 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Bois de Bologne - Alcione Araújo‏

"Tragado pela globalização, o país se rendeu à língua tecnológica do mercado" 
 
Alcione Araújo


 
Mais que lei municipal, dar nome a prédio – residencial, comercial ou condomínio – é prática que o marketing manipula na estratégia de venda. O batismo, que teve motivações afetivas, hoje induz o comprador a crer que, morando no imóvel, viverá os estados (ou status?) de espírito sugeridos pelo nome. Para quem crê em mágica!

No começo, as casas louvavam as matriarcas na fachada: Villa Madalena, Dolores, Lorena. Logo, a tradição impôs a fé: os prédios se chamavam São José, Reis Magos, Santa Inês, São Marcos. Ou cultuavam heróis: Edifício Tiradentes, Cláudio Manoel da Costa. Ou poderosos: Edifício Pedro II, Maurício de Nassau, José Bonifácio, Getúlio Vargas, etc. Ou famílias notáveis: Palacete Dantas, Solar Matarazzo, Parque Guinle, Edifício Martinelli. Na era do Brasil-brasileiro, de fé no desenvolvimentismo, tudo o que era nativo, pessoas ou coisas, tinha valor: Edifício Jequitibá, Araucária, Jacarandá, Ipê, Magnólia. Ou Edifício Ametista, Topázio, Safira. Ou de municípios ou estados: Edifício Bahia, Belém, Natal. De origem geográfica: Edifício Rio Bravo, Mantiqueira, Itambé, Copacabana, Sete Quedas, Praia Grande. De animais e aves: Edifício Gaivotas, Andorinha, Uirapuru, Albatroz, Moby Dick, Juriti, Beija-flor... 

Os construtores descobriram o mundo e convenceram compradores de que seriam cosmopolitas morando nos edifícios Roma, Paris, Lisboa, Nova York. Ou herdariam na compra o charme da cidade: Edifício Ibiza, San Remo, Saint-Tropez, Biarritz, Cap Ferrat, Juan les Pins. Ou a nobreza de castelos e palácios: Edifício Versalhes, Rochefoucauld, Chambord, Chantilly, Windsor, Fontainebleau ou Liechtenstein. Ou o luxo da região: Edifício Mediterrâneo, Alpes, Adriático, Champs Elysées. Ou a beleza das flores: Edifício Bougainville, Flamboyant, etc. Era chique nome francês!

Enfim, acharam a arte e, como em Paris, puseram nome de artista: Edifício Dante Alighieri, Machado de Assis, Lima Barreto, Castro Alves, Cervantes, Shakespeare, Camões, Baudelaire. E personagens: Edifício Capitu, Gabriela Cravo e Canela, Anna Karenina, Diadorim, Dom Quixote, etc. A arte que transferia elegância, cultura e charme ao morador era a música erudita: Edifício Beethoven, Mozart, Brahms, Vivaldi, Stravinsky, Chopin, Debussy, Bach, Wagner, Mahler, Tchaikovsky, Ravel, Verdi. Nativo, só Villa-Lobos. Os populares nada agregavam em luxo e nobreza. 

Só a pintura tinha mais charme que a música. E tome Edifício Velásquez, Da Vinci, Kandinski, Salvador Dalí, Renoir, Miró, Portinari, Picasso, Paul Cézanne, El Greco, Michelangelo e até Van Gogh – onde o charme e a elegância na biografia do gênio depressivo com surtos mentais, que cortou a própria orelha e se matou na miséria?

Tragado pela globalização, o país se rendeu à língua tecnológica do mercado global. Prédios inteligentes e sustentáveis têm no nome o conceito do projeto, seco e frio: Business Center, Quality House, Central Park Prime, Green Park, Wave Residence, Black Stone, Onlimited Ocean Front, Independenza e Jardins de Provence até o multilíngue Chateau Monet Residence Garden. Daí o famoso comprador que ensina, ao celular, a anotar o nome do seu prédio: “Escreva bois. Boi, o marido da vaca. Diz-se boá, mas escreve bois. Boá de bolonhe”. E soletra: 
“B, o, u, l, o, g, n, e”.

Death In Vegas - Scorpio Rising

Vem aí o horário eleitoral (que não é nada gratuito) - Eugênio Bucci

Em agosto, quando as eleições municipais esquentarem um pouco mais, entrará no ar o famoso horário eleitoral “gratuito”. Que não é gratuito coisa nenhuma. Muita gente paga por ele, a começar de nós mesmos: eu, você e os demais cidadãos. Isso mesmo. Você paga - e não paga pouco.

Funciona assim: primeiro, as emissoras exibem a propaganda política - os programas partidários ou o horário eleitoral - e, depois, na hora de pagar o Imposto de Renda recebem uma compensação fiscal em troca dos minutos que cederam aos partidos políticos. Ou seja: o Fisco deixa de arrecadar tributos. O Estado paga a encomenda. Indiretamente, é a sociedade quem paga a conta.
E de quanto é a dolorosa? Tomemos como base o ano de 2010, quando tivemos eleições presidenciais. Naquele ano, a compensação fiscal dada às emissoras pela transmissão da propaganda eleitoral impôs aos cofres públicos um corte de R$ 850 milhões. Foi a própria Receita Federal que fez a estimativa, conforme noticiou oficialmente a Agência Câmara, logo em 17 de agosto de 2010. É curioso. Falam em aprovar no Brasil o financiamento público das campanhas políticas. Mas, quando olhamos para esses R$ 850 milhões, não há outra conclusão possível: uma parte - parte expressiva, muito expressiva - do financiamento das campanhas eleitorais já é pública. E cara.

Vamos repetir esse número. São R$ 850 milhões num ano só. Você acha muito? Acha que é uma remuneração razoável pelo tempo de todas as emissoras do Brasil? Para as próprias emissoras, a conta não bate. Elas afirmam que, na prática, os cifrões que deixam de recolher ao Fisco ficam bem abaixo do que ganhariam se o horário fosse vendido normalmente. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), embora afirme respeitar o horário eleitoral como um canal de esclarecimento para o eleitorado, não esconde que, para as empresas de radiodifusão, as campanhas eleitorais são financeiramente um péssimo negócio - e ainda por cima espantam a audiência. Pela lei, as rádios e TVs poderiam recuperar até 80% do valor de tabela dos minutos que cederam. No mundo real, porém, elas recuperam menos e arcam, também elas, com parte do prejuízo.

Até aqui, portanto, nós pagamos uma fatia da fatura, e as emissoras pagam outra. Só que a cobrança não termina aqui. Ela continua, com juros e correções especulativas, no nebuloso mundo das agressões e dos conchavos entre os caciques da política pátria. Eles também são chamados a assumir despesas. Eles também desembolsam seus patrimônios - constituídos de outras moedas.

Os caciques são diferentes em tudo, a não ser numa certeza, que compartilham sem a menor cerimônia: para eles, tempo não é apenas dinheiro - tempo é poder. O tempo de propaganda eleitoral na TV e no rádio é sinônimo de votos (essa moeda valiosa), e votos empilhados são um sinônimo indiscutível de poder. Estamos num país em que os agentes políticos acreditam que todo o poder emana do horário eleitoral (que não é gratuito, como você está vendo). Por um minuto a mais de televisão, os chefes partidários são capazes de dar tudo, de empenhar tudo. Aliam-se a belzebu, penhoram a reputação (essa moeda depreciada), rifam a biografia. E que fique bem claro: não é o caso de um ou de outro caudilho, de uma ou outra “pasionaria” - é o caso de todos eles (e elas), mesmo dos que (ou das que) se lamuriam, mas no fim das contas se acomodam.

Nunca antes na história deste país se atribuiu tanto poder à imagem. Nunca tantos pagaram tão caro por tão inflacionados closes de televisão. Se na guerra os generais contam tanques e ogivas, na política brasileira contam segundos, décimos de segundo. As alianças não têm sentido ideológico nenhum, é tolice choramingar. Elas têm sentido publicitário. É o que basta. Os ideólogos foram escanteados pelos marqueteiros, para sempre, e os marqueteiros custam os olhos da cara e os zarolhos da coroa.

Alguns se perguntam, incrédulos, se a televisão vale tudo isso. Outros elucubram sobre o grau de influência da internet sobre a formação da vontade do eleitor. À toa. Na cabeça dos caciques, a TV é o tabuleiro (picadeiro?) da política. E é isso mesmo. A TV é o centro, de um jeito ou de outro. As redes sociais ecoam o que a televisão pauta. Funcionam como linha acessória. Por enquanto, ao menos por enquanto. O campo de batalha é a TV, com suas ilusões e seus fetiches traiçoeiros. Como esse de parecer que, nela, a imagem nos chega de graça, como a chuva no Cerrado -como o sorriso dos demagogos.

R. Época
09/07/2012